Padre Inácio, o Mata Anjos
Alguns dizem:
- A alegria é maior que a tristeza.
Outros afirmam:
- Não, a tristeza é maior.
Mas eu digo-vos
que são inseparáveis.
Vêm juntas
e quando uma se senta
a sós convosco à vossa mesa
lembrai-vos que a outra
dorme na vossa cama.
[Khalil Gibran, O profeta]
Aspirantes. Freiras. Moças do coro. Catequisandas. Enfim, varria tudo o que lhe aparecia inevitavelmente pela frente. De facto, não foi por acaso que muito rapidamente o Padre Inácio ganhou (com mérito) a alcunha de Mata Anjos.
Abriu a porta que esteve fechada durante três anos. No mesmo instante em que punha o seu pé gordo no interior da Paróquia, dois quarteirões ao lado, a Avó Catarina exclamava: «Guardem as vossas filhas, as vossas netas, as vossas sobrinhas e até mesmo as vossas afilhadas. O Mata Anjos chegou!»
Sem ter um aspecto totalmente asqueroso, porque a batina impecavelmente branca não o permitia, o Padre Inácio era no entanto quase nojento. Na sua boca escorregadia, só faltavam lá bichos a habitar, pois tinha todas as condições criadas para isso. Os dentes eram de uma coloração indefinida, entre um roxo e um castanho, tingidos também pelo verde escuro e o amarelo torrado. Das suas gengivas, brotava um pequeno musgo que precisava de ser podado todos os dias. Assemelhava-se, o musgo, a um vulgar bolor, com a diferença de exalar um forte cheiro a mijo de javali. Era cruel o que se ouvia dizer da sua aparência, mas depois de vê-lo, constatava-se que não havia exagero nenhum. Todas as cores, os tons e até os cheiros, se confirmavam com a sua presença. Daí que espantasse não habitarem bichos na sua boca.
Com a sua chegada, a Paróquia de S. Francisco de Assis ganhou vida. E quanta vida! O Padre Inácio organizou sozinho, de forma brilhantemente matemática, horários compatíveis e flexíveis, para que as raparigas da Praia do Bispo tivessem sempre uma actividade para partilhar com ele. Fosse o canto, a Catequese, o curso de Ajudante de Missas, ou até mesmo, imagine-se!, o basquetebol. À medida que o tempo e as aulas iam decorrendo, nas mais diversas actividades, o Padre foi desenvolvendo inovações. Nas aulas de canto, por exemplo, quando carecia de um agudo, beliscava energicamente o rabo das moças. Se fosse o caso de uma nota grave, em vez de beliscar, limitava-se a apalpar de mansinho. Os códigos eram respeitados e, com esses códigos, o Padre Inácio passou a ensinar uma série de actividades até então desconhecidas para as raparigas.
Com o passar dos primeiros meses, o Padre notou que duas pessoas na Praia do Bispo não vinham às suas missas: a Avó Catarina e o Sr. Tuarles. Indagou sobre as razões de tais ausências contínuas e nada conseguiu apurar. Da mesma maneira que ninguém contava que gritinhos eram aqueles que se ouviam na sacristia em plenas explicações extraordinárias, também ninguém contava ao Padre as antigas questões daquele bairro.
Ao contrário do que ele pensava, era tudo muito simples. A Avó Catarina recusava-se sempre que a convidavam para a missa, declamando um complicado discurso inacessível à compreensão até daqueles que lhe eram mais chegados. Entre palavras demasiadamente cuspidas e outras engolidas, percebia-se somente o termo Mata Anjos. Como se ninguém percebesse, nem tão pouco lhe ligasse, ela era simplesmente abandonada ao silêncio do enorme casarão, onde tentava a todo custo resistir aos violentos assédios da morte. Quanto ao Sr. Tuarles, a sua atracção pelo seu próprio bar e pelo cheirinho da cerveja morna, era muito mais forte do que o vago interesse, meramente social, de aparecer na missa.
Sete meses depois da chegada do Padre Inácio, três das suas estudantes internas apareceram grávidas. Duas freiras francesas tinham voltado para o seu país pela mesma razão. Nunca passou pela cabeça de ninguém, excepto da Avó Catarina, pensar sequer na ajuda do Padre nestes casos. Só que começou a ser estranha a sua atitude: não perguntava nada, não se preocupava em indagar sobre a paternidade das futuras crianças e, pior ainda, brincava com as grávidas como se estivesse feliz pelo seu estado de graça. À tardinha, quando passeava com o seu enorme "grupo de jovens", era visto a brincar com as grávidas em alegres e espontâneos movimentos que, na brincadeira, dificultava, como se fosse ele mesmo, uma das suas grávidas!
O Padre Inácio criou ainda um torneio de basquetebol na Kinanga City, bairro que ficava no interior da Praia do Bispo. Ao contrário do que se esperava, os seus jogos femininos tiveram enorme adesão. Inventou, como em tantas outras modalidades, novas técnicas de jogo e de conduta em campo. Nos lançamentos livres, ensinou-as a mexer o rabo e o peito antes de efectuarem o lançamento. «É uma questão de concentração» explicava, se fosse caso disso. Mandou também vir do estrangeiro equipamento justo, em licra, para «facilitar a movimentação das suas atletas» em campo.
Com o passar do tempo, cerca de ano e meio depois de ter chegado, as grávidas sucediam-se. Algumas, as que tentavam ou chegavam de alguma maneira a dizer alguma coisa, eram mandadas de volta para o interior, ou para o estrangeiro, se fosse a sua origem. Mais gordo do que nunca, de batina branca e sapatos ligeiramente sujos e tortos, passou a fazer somente as missas do fim-de-semana. Apalpava atletas no pátio, em pleno treino. Procurava ficar a sós com cada uma das raparigas do coro que não eram escolhidas pela voz, mas pelas saliências do corpo, para que com a desculpa de as tornar melhores cantoras as apalpasse ou beliscasse à sua vontade. Não tocava nas moças da Praia do Bispo porque soubera entretanto que devido aos avisos da Avó Catarina, os pais delas estavam alerta. No auge da sua liberdade, no auge também das suas práticas imorais e constantes, cometeu o erro de não resistir à filha do Sr. Tuarles: a Paurlete. Sim, a mesma Paurlete que tinha o nariz do tamanho do seu dedo grande do pé!
A primeira reacção do Sr. Tuarles, foi pegar na AK47 e dirigir-se para a porta do bar, onde sabia que amigos seus não o deixariam sair. Foi o que fez. E como previa, não o deixaram sair. No fundo, ele próprio pensava que não seria capaz de dar um tiro ao Padre Inácio. Embora soubesse dos boatos, das histórias, e conhecesse até dois dos seus filhos sem pai. Com a cara amarela, quase a passar para um vermelho vivo, dir-se-ia portanto que a verdadeira tonalidade era o laranja, o Sr. Tuarles agitava a arma para onde se estivesse a mover, o que provocou o pânico geral nos seus amigos. No paroxismo da sua fúria, mais por não saber exactamente o que se tinha passado, do que propriamente pela situação em si, apontou a arma para o cimo da igreja e deu dois tiros. As cápsulas saltaram para dentro do seu copo de cerveja, o que ainda o irritou mais. «Esta merda está encravada!», disse ainda, no fim dos tiros.
Os amigos apressaram-se a tirar-lhe a arma. Já estava mais calmo. Fez sinal à mulher para ir guardar a arma. Enquanto tentavam acalmá-lo um pouco mais, o Sr. Tuarles repetia insistentemente: «Onde é que se meteu essa miúda?»
Ouvindo os tiros ricochetear na cruz de metal, a Avó Catarina teve a certeza que o caldo se entornara de uma vez por todas. Rindo-se baixinho, algures entre uma escada e outra, sempre metida na pressa de fechar e abrir janelas, esfregou as mãos satisfeita pela chegada do "dia" do Padre. «Madalena...» gritou com os pulmões antigos de muitas músicas, «vai à igreja ver o que se passa e depois vem a correr contar-me...»
Mas a Madalena, pela primeira vez na história da Praia do Bispo, não ouviu a Avó Catarina. O que se passou na igreja naquela tarde, as conversas que se deram entre o Sr. Tuarles e a Paurlete, sua filha, e tudo o que à tardinha se passou em plena rua da pequena marginal, foram acontecimentos inesquecíveis para quem assistiu e aos quais a Avó Catarina nunca teve acesso visual. Contaram-lhe no dia seguinte, enquanto ela amaldiçoava a evadida Madalena. «Nunca me perdoarei...» dizia para si própria, quase chorando. «Podia ter visto com os próprios olhos a desgraça do Mata Anjos!»
Referia-se ao Padre Inácio, evidentemente. Aliás, a partir daquele dia, foi assim que todo o mundo passou a chamá-lo. Como se nunca tivessem ouvido a expressão, porque agora era mesmo uma simples e esquecida expressão, "Padre Inácio".
Quando a Paurlete chegou finalmente a casa, entrou pela porta dos fundos da casa da vizinha, saltou o muro de três metros aleijando-se no tornozelo esquerdo, tropeçou nas galinhas preguiçosas que passeavam pela capoeira sem rede, e fez um estrondo enorme quando deixou cair, ainda na sequência da queda, um montão de latas velhas que o Sr. Tuarles coleccionava. Viu assim frustrada a sua missão de entrar em casa sem ser notada. Pegando novamente na arma, lá veio o pai da Paurlete, o Sr. Tuarles, buscá-la, como sendo ela a principal criminosa da história que ele ainda nem conhecia bem. «Vamos conversar lá em cima» disse-lhe, apontando o quarto com o cano da arma. «Tenho a impressão que o dia hoje ainda vai acabar mal...»
Num quarto sucumbido àquela escuridão relativa da penumbra da tarde, a Paurlete sentou-se na cadeira velha que lhe pertencia há muitos anos. O pai sentou-se na cama, acariciando nervosamente a arma como se fosse precisar dela a qualquer momento, quanto mais não fosse para dar um tiro a si próprio.
- Paurlete - começou - Não mintas. Diz só bem o quê que se passou com o Padre...
- Pai, num foi nada...
- Eu disse para não mentires! - continuou com a voz tão baixa que até metia medo. - Conta bem a história, e não duvides que hoje um de nós ainda vai apanhar um tiro. Ou sou eu, que sou estúpido e te deixo ir à igreja daquele matador de anjos, ou és tu porque fizeste o que não devias, ou é ele por te ter obrigado a fazer o que não devias. Mas digo-te - continuou exactamente com a mesma voz - Tenho que dar um tiro a alguém!
- Ai Pai... - começou a Paurlete num choro que não o comoveu. - Ele me obrigou...
- Ele te obrigou?!? Te obrigou como?
- O Pai sabe mesmo... me disse «vamos na sacristia para te ensinar uma coisa...»
- "Ensinar uma coisa...?" - imitou o Sr. Tuarles dirigindo-se para a janela e olhando a igreja com raiva, como se ela fosse o Padre Inácio. - E o quê que ele te ensinou?
- Aquilo mesmo...
- Então e tu num sabias dar-lhe um bico? Uma chapada? Porquê que não gritaste?
- Eu num sabia, Pai. Eu até pensei... - interrompeu, chorosa. - ...que ele estava à procura d´alguma coisa...
- Ah pois, e ele ´tava mesmo! - gesticulou com a arma, irrequieto. - E pelos vistos, encontrou...
Do lado de fora, a mãe da Paurlete, mulher do Sr. Tuarles, ouviu o fim da conversa sem perceber nada. Naquele tom irritado, o Sr. Tuarles baixou ainda mais o tom de voz, e entre pequenos sons desarticulados e nervosos, ouvia-se o eco de chapadas discretas, brutas, intencionalmente fortes. Chorou do lado de fora a sorte da filha, não entrando no quarto, pois arriscava-se também ela a levar um tiro.
Enquanto a Avó Catarina estranhava a demora da Madalena, simplesmente porque esta nem sequer tinha ido onde ela pretendia, sendo assim bastante complicado voltar de lá, o Sr. Tuarles certificou-se de que a arma não encravava mais. Atravessou a rua sem que ninguém pudesse impedi-lo e, acompanhado por uma sombra de trinta e tal pessoas, entrou na igreja com os seus passos barulhentos de botas repletas de poeira.
Era um espectáculo curioso de ser assistido. Um homem quarentão de corpo largo, com uma AK47 no braço, rodeado de todo o esplendor daquela igreja, era no mínimo, um contraste fabuloso. À sua frente, Jesus Cristo repousava, passivo, na cruz. E olhava-o como olhava todo o mundo que se punha à frente dele. O Sr. Tuarles, consciente desse olhar, voltou-se para trás, apontando a arma para a multidão que o seguia. Assustados, desataram a correr. Da poeira recentemente levantada, um pequeno vulto subsistia. Débil, embora não muito magro, o corpo era da sua impotente esposa. Impotente em dominá-lo em situações como esta. Mas vendo-o tão descontrolado, de arma na mão em plena igreja, venceu os seus medos e deixou-se estar ali, a olhar para ele, como o próprio Jesus Cristo. «Tuarles...», disse com a voz seguramente trémula, «pousa essa arma».
Como se a ouvisse pela primeira vez na sua vida, sentou-se no banco mais próximo encarando novamente a cruz e o respectivo Jesus. Ao seu lado, repousava a arma, brilhante, iminentemente pronta. Sem ser convidada, ela veio sentar-se ao seu lado, pondo a arma no colo, sentindo pela primeira vez o peso que o seu marido suportava tão bem. Era como se o tempo tivesse parado ali, naquele momento, para que eles pudessem conversar um bocadinho.
- Tuarles, vamos para casa. Mais logo falas com o Padre...
- Sabes Isabel, não é a questão da virgindade dela. Hoje em dia já ninguém casa virgem. Eu até suportava bem a situação se fosse com um rapaz qualquer. Mas um Padre? Ainda por cima, este Padre?
- Então - tentou ela -, vai ter com ele, mas deixa-me levar a arma...
- Aguentas com ela? - perguntou ele, aceitando a ideia.
- Claro.
Quando ela se dirigia para o corredor formado pela ausência de cadeiras, sentiu a dúvida cair sobre si. Se por um lado não era bom deixá-lo armado, por outro, a arma representava a possível segurança do Padre. No fundo, ele não seria capaz de lhe dar um tiro. E sem a arma? O que faria ele ao Padre sem a arma?
Uma valente carga de porrada.
No seu sorriso verde, enfeitado pelo musgo que àquela hora da tarde já tinha crescido muito, lá estava o Padre Inácio na sua pequena horta, apanhando tomates verdes e alfaces tristes. Quando viu o Sr. Tuarles, e quando viu igualmente que ele não vinha em missão de paz, nem tão pouco numa outra missão qualquer que não fosse especificamente a de guerra, engoliu então o seu sorriso bolorento. Analisou rapidamente as hipóteses de fuga e tentou ainda correr. Foi a sua barriga que o traiu. Foram os seus tornozelos gordos e pouco flexíveis que, com a intencional ajuda da barriga, o fizeram cair.
Esborrachou a cara num tomate podre. O tom verde da sua boca assumiu uma cor tão indefinida quanto indescritível. O medo, ou quem sabe, o pânico, tomou conta da sua boa disposição de todos os dias, e o seu instinto de sobrevivência obrigou-o a rastejar para lado nenhum. Passivo, consciente da impossibilidade daquela fuga, o Sr. Tuarles esperava que aquele espectáculo particular acabasse, para que ele começasse o espectáculo seguinte que inevitavelmente se viria a consumar.
Sem pena do Padre Inácio, até porque o momento não o permitiu, enfiou-lhe um violento pontapé na bexiga. O Padre gemeu e levantou-se. Agarrando com a mão esquerda a orelha também esquerda, do Padre Inácio, o Sr. Tuarles começou então a longa chuva de bofatadas que aplicou durante meia hora com a mão direita. Enquanto repetia o mesmo movimento, para trás e para a frente, ia levando o Padre para o exterior da igreja, onde os esperavam, como era sabido, os curiosos, os avisados, os interessados e até mesmo os surpreendidos. Ao fim de meia hora, cansado, o Sr. Tuarles viu a sua raiva diminuída. O facto de ter passado meia hora a esbofeteá-lo, e de o ter trazido para a rua, eram meros artifícios a que recorria para não ser mais violento. Era a maneira que tinha arranjado, inconscientemente, de não matar o Padre à porrada.
Devido a todos os factores que estão inerentes ao processo das bofatadas, a face direita do Padre Inácio, não só tinha mudado de cor, como de relevo. A multidão teve então o prazer de ver que, por debaixo da primeira camada de pele da bochecha, residia constantemente a pequena camada de musgo que se via no interior da sua boca. Era caso para se dizer, embora ninguém tenha dito, que a barba do Padre de todos os dias, não era barba, mas sim relva. Sendo assim fácil de concluir que o Padre Inácio não fazia a barba, mas a relva!
Dado o aspecto dorido daquela face, a raiva do Sr. Tuarles começou a ceder. Mas quando lhe largou a orelha esquerda e viu aquela face ainda tão fresca, caiu na tentação de lhe dar mais umas estaladas. No seguimento da carga de porrada, ouviram-se gritinhos de raparigas recém acordadas que vinham do interior da Paróquia. Ao senti-las rodearem o Padre, o Sr. Tuarles parou.
Elas levaram-no para dentro e o Sr. Tuarles regressou para o seu bar. Mal entrou, viu a sua mulher agarrada à AK47, como se fosse a única coisa a fazer naquele momento para impedir uma verdadeira desgraça. «Já passou» disse ele, enquanto lhe arrancava a arma das mãos para finalmente ir guardá-la. «Acho que já passou» disse no meio das escadas que davam para o quarto deles.
Foram estes os acontecimentos históricos da Praia do Bispo que a Avó Catarina só soube no dia seguinte. Estranhou que naquela noite houvesse pouco movimento na rua e até mesmo na casa da sua vizinha. Mas como era a tradição, ela não fazia perguntas. Esperava que as pessoas lhe viessem contar as coisas, e normalmente isso acontecia logo depois dos acontecimentos. Mas daquela vez, o acontecimento tinha sido de uma tal ordem que, nos delírios dessa noite, enquanto se contava a história aos que passavam em frente à igreja, todo o mundo, pela primeira vez, se esqueceu da Avó Catarina. Na verdade, ela estranhou também naquela noite a demora da Madalena. Essa moça que a servia há tantos anos e que, farta das porradas que levava sem saber bem porquê, fugiu com o seu namorado daquela época.
O Padre só teve tempo de arrumar as coisas e despedir-se da Rigorosa, uma vaca seca, ossuda e frágil, que ele mantinha há muito tempo, no intuito de engordá-la para, certamente, vir a comê-la. Mas isso nunca chegou a acontecer. No dia seguinte ao da briga, um carro preto de marca pouco conhecida veio apanhar o Padre Inácio e as suas magras malas. Soube-se então na Praia do Bispo que o Padre tinha sido impedido, pelas demasiadas evidências, de continuar a exercer o sacerdócio. Passou a ocupar o (só para ele existente) cargo de bibliotecário da Diocese. Não visitou nunca mais a Praia do Bispo, nem quis saber nunca dos inúmeros filhos que cresciam pela cidade, pelo interior e até pelo estrangeiro. Nem sequer perguntou mais pela débil Rigorosa.
Continuou, isso sim, com os seus hábitos amorosos praticados com menos frequência devido ao apertado controlo que o Bispo exercia sobre ele. Continuou também com o inevitável hábito de fazer a sua relva com todo o cuidado possível, para que não se estranhasse ver um homem com barba verde.
O interior da sua boca, no entanto, atingiu níveis de deterioração altamente inconcebíveis. Sem ele saber, no seu quartinho, à noite, bichos não identificados circulavam livremente por ali, uma vez que dormia de boca aberta e com um sono profundo que não permitia surpreender os animais. Quando alguém o via na cidade, deambulando nas suas ocupações vagas, encontrava-o com um outro aspecto. Era como se a ausência de todo aquele mundo que ele tinha criado o tivesse envelhecido de maneira drástica. Na ausência do seu "grupo de jovens", como lhes chamava, a sua boca passou a representar verdadeiramente o que ele sempre tinha sido: um tarado que, para além do prazer, encontrou a filha de um pai nervoso.
A Paróquia voltou a ser fechada. Sem uma razão concreta que a mantivesse na verdadeira realidade, a Avó Catarina entregou-se nos últimos anos de vida à sua própria realidade: o antigo mundo das janelas! Até porque, sem o Padre Inácio, nada de assustador ou interessante se passava na Praia do Bispo. Ela subia e descia as escadas de encontro a janelas que estivessem abertas ou fechadas. Se lhe perguntassem alguma coisa, dizia: «Acho que deixei a janela fechada». É claro que por vezes também dizia: «Acho que deixei a janela aberta»
Na indiferença dos tempos, misturada com a poeira típica da Praia do Bispo, a realidade despiu-se dos seus acontecimentos caricatos. Poucos anos mais tarde, a Avó Catarina morreu. Sem ela e sem o Padre Inácio, da verdadeira Praia do Bispo restou o nome, a poeira e a igreja fechada. Essa mesma igreja que mais tarde viria a ser reaberta com o famoso enterro do Sankara. Numa outra geração. Numa outra realidade.
Curiosamente, ainda hoje se fala do Padre Inácio. Na Praia do Bispo, é normalmente à hora da sopa que isso acontece. Na mesma hora em que a poeira irrequieta começa o seu descanso e que as crianças, à semelhança da poeira, são obrigadas a sentar-se à mesa, há sempre uma Avó Catarina que exclama no prazer do seu próprio gozo:
-
-Comam tudo... Senão vou chamar o Padre Inácio
:::